quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Carmen Miranda - Parte III (1928/1930)



Acima, o baiano Josué de Barros (1888/1959) com Carmen Miranda. Naquele longínquo 1928, ele chegou à conclusão, depois de ouvir as músicas, que ela tinha futuro, e logo se empenhou em "lapidar o diamante" de 19 anos. E, em janeiro de 1929, ela estava pronta para o seu primeiro público, do qual fazia parte sua família. E cantou outros dois tangos: Che, Papusa Oi (de Hernán Matos Rodriguez e Domingo Enrico Cadícamo) e Caminito (de Juan de Dios Filiberto e Gabino Coria Peñaloza), um de 1927 e outro de 1926...

De nacional, ela cantou Chora Violão (de Josué de Barros) e Linda Flor (de Henrique Vogeler e Candido Costa).

O sucesso da apresentação fez com que Josué, empolgado, a levasse a outros eventos e também a rádios. E, em 1929, as rádios começaram a mudar sua programação, começando a incluir músicas populares...era o momento certo para que Josué de Barros lançasse sua "descoberta"...

Por volta de agosto ou setembro de 1929, Josué levou Carmen para conhecer o Diretor Artístico de uma nova gravadora, chamada Brunswick: Henrique Vogeler (1888/1944), o autor de Linda Flor, que Carmen cantara m janeiro daquele ano. Ali mesmo ela apresentou sua voz nesse que é o primeiro samba-canção (segundo Ruy Castro) e conquistou "sua platéia". Assim, gravou seu primeiro disco...Abaixo, Henrique Vogeler:



O disco tinha duas músicas: Não Vá Simbora e Se O Samba É Moda, ambas de Josué de Barros...Mas foram informados que o disco só seria lançado em 1930.

Não querendo esperar tanto tempo, Josué procurou outra gravadora: a Victor. Em novembro, foi até a sede da gravadora, e conversou com Rogério Guimarães (1900/1980, responsável pelo cast e repertório), e praticamente implorou que ele ouvisse Carmen. Apesar de achar desnecessário, Rogério aceitou a opinião de Pixinguinha (1897/1973, que cuidava dos arranjos e da regência da orquestra de acompanhamento), e ouviu a moça. Com a palavra, Ruy Castro:

Ali estava uma cantora como nenhuma outra no Brasil. Aliás, praticamente não havia com quem compará-la. Havia as cantoras de salão, como Elisinha Coelho e a própria Jesy (Barbosa, 1902/1987), muito competentes, mas de uma reverência quase religiosa diante do microfone. E havia as cantoras do teatro, que só as vezes gravavam, como a estupenda Aracy Côrtes (1904/1985), uma soprano valente e afinadíssima, mas mais interessada na nota certa (que ela infalivelmente alcançava), do que na interpretação. Seus agudos causavam sensação no palco. Só que o teatro era uma coisa e o disco, outra. Carmen, também soprano e também afinadíssima, com uma dicção de cristal, não alcançava a extensão de Aracy nos agudos, mas tinha mais peso na voz e capacidade de trabalhar igualmente nos médios. Isso indicava seu potencial para cantar numa variedade de ritmos e estilos. E Carmen tinha a interpretação, a bossa da cantora de rua - um talento para enxergar nas entrelinhas das frases, tomar liberdades com a melodia e surpreender o ouvinte com seus achados.

Nota: Jesy Barbosa era a única contratada da Victor, quando Carmen fez seu teste.

Imediatamente, decidiu-se a estratégia de lançamento: Carmen cantaria músicas brasileiras, e não se diria que era nascida em Portugal, para que ninguém pensasse que ela fosse cantora de fados. Assim, no dia 4 de dezembro, ela gravou seu primeiro disco na Victor. De um lado, a música Triste Jandaia, e do outro, Dona Balbina. Ambas de Josué de Barros.

Em janeiro de 1930, nos dias 22 e 23, ela foi chamada para gravar mais músicas: Burucutum, de Sinhô, Mamãe Não Quer, de Américo de Carvalho e Iaiá Ioiô, de Josué de Barros.

Mas, antes que esse disco chegasse às lojas, houve o encontro de Carmen com Joubert de Carvalho (1900/1977). Segundo a lenda, Joubert estaria passando pela frente de uma loja de discos, quando o gerente o chamou, para ouvir um "disco novo", e ele ouviu Triste Jandaia. Gostou tanto, que pediu para ouvir mais vezes. E, segundo ele, tinha a sensação de "ver" a cantora. Nesse momento, ela teria entrado na loja e foi apresentada a ele, que imediatamente expôs seu desejo de compor alguma música para ela gravar. Ela agradeceu e se despediram.

Menos de 24 horas depois, ele tinha uma música pronta para Carmen: Taí (ou Ta-hi), Pra Você Gostar de Mim. No dia 27 de janeiro de 1930 Carmen gravou a música (tempo recorde) e no Carnaval daquele ano ela foi lançada. Antes do Carnaval, o povo cantava Iaiá ioiô e Dá Nela (de Ary Barroso). Após a gravação de Taí, a música se "alastrou" pelo Rio de Janeiro, e antes que o Carnaval terminasse, todos a conheciam. Três marchinhas num único ano era coisa que nunca tinha se visto. E uma que fizesse sucesso tão rápido, menos ainda...Abaixo, ouça o sucesso do Carnaval de 1930:

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