quinta-feira, 5 de maio de 2011

Billie Holiday - 1915/1959 - Scent of magnolias, sweet and fresh

Recentemente, postei aqui, na Biografia de Carmen Miranda, que ela foi assistir a um show de Billie Holiday, logo que chegou aos EUA, em 1939. Mas quem era Billie Holiday?

Eleanora Fagan nasceu na Pensilvânia, em 1915. Nessa época, Carmen Miranda já tinha seis anos. Sua mãe era Sarah Julia "Sadie" Fagan, e seu pai foi Clarence Halliday, um músico. Eles nunca se casaram, e nem viveram juntos. Sua mãe ainda foi expulsa de casa, aos 13 anos, por estar grávida. Uma das primeiras fotos da menina foi tirada em 1917, quando ela tinha 2 anos:


"Sadie" precisava trabalhar, e deixou sua filha para ser criada por sua meia-irmã, Eva e pela mãe dela, Martha. A menina foi se tornando uma rebelde, sendo que antes dos 10 anos já estava sendo levada ao tribunal de menores. Na ocasião, foi mandada a um reformatório, onde ficou cerca de nove meses, antes de ter "liberdade condicional".

Depois dessa "prisão", Eleanora voltou a viver com a mãe, que tinha aberto um restaurante. Eleanora passou a trabalhar no restaurante, e aos 11 anos de idade saiu da escola. Em 1926, ela foi estuprada por um vizinho, Wilbur Rich. Ele foi preso, e ela foi colocada novamente sob custódia do estado.

Depois disso, "Sadie" foi viver no Harlem, e Eleanora voltou a viver com Martha. E foi nessa época que ela ouviu Louis Armstrong e Bessie Smith.

Em 1919, já com 14 anos, Eleanora voltou a viver com Sadie, no Harlem. Também começou a trabalhar como prostituta, para Florence Williams. Mas as duas, mãe e filha, logo foram presas. Após esse período, Eleanora passou a se chamar Billie Holiday.


Entre 1929 e 1931, ela passou a se apresentar com Kenneth Hollan em muitos lugares, sendo cada vez mais conhecida.

Em 1932, Billie substituiu a cantora Monette Moore, no Club Covan. Em 1934, ela gravou Riffin' the Scotch:


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Essa música vendeu 5 mil cópias. Depois disso, ela começou a criar um estilo próprio. Em 1936, aos 21 anos, Billie gravou Summertime:

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Nessa época, Billie já começava a ser chamada pelo apelido carinhoso, dado pelo saxofonista Lester Young (1909/1959): Lady Day.

Lady foi crooner de bandas famosas e se apresentou com nomes como Duke Ellington (1899/1974), Benny Goodman (1909/1986), Count Basie (1904/1984) e Artie Shaw (1910/2004). Com Artie, ela se tornou a primeira mulher negra a se apresentar com uma orquestra de brancos.

Outros sucessos de Billie/Lady, ainda de 1936, foram Let's Call a Heart a Heart, The Way You Look Tonight e I Can't Give You Anything But Love. Abaixo, a voz de Billie, cantando The Way You Look Tonight:


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Mas, mais do que OUVIR, era VER Lady Day cantando. Segundo o escritor Ruy Castro, em seu livro Saudades do Século XX,

Billie Holiday cantava como uma deusa e sabia disso. Uma deusa não arranha sua divindade com movimentos prosaicos diante dos mortais. Sua voz deve bastar. Por isso, Billie cantava imóvel, quase como uma estátua.




Em 1937, Lady Day gravou I've Got My Love to Keep Me WarmThis Year's KissesThey Can't Take That Away From MeMe, Myself & I Getting Some Fun Out of Life, entre outras.




Uma parte interessante da vida da cantora, é de como ela se auto-destruiu, durante sua vida, convivendo com homens brutais, que a espancavam, fazendo sexo desmedido e usando drogas até não mais poder.

Quando a maconha foi declarada ilegal em 1937 e o FBI começou a bufar no pescoço do pessoal do jazz, muitos começaram a procurar um substituto menos bandeiroso: a maioria foi para o álcool, outros para a heroína. Billie preferiu os dois, com passagens por cocaína e ópio e sem abandonar de pronto a maconha. Seu organismo era equipado para tolerar doses piramidais de qualquer coisa. (Ruy Castro)

Em 1938 e 1939, ela gravou algumas das músicas que a tornariam uma lenda: My ManYou Go to My Head
 I'm Gonna Lock My Heart (em 1938) e Strange Fruit (em 1939). Strange Fruit era considerada, por Holiday, como SUA canção. Ela foi feita pelo professor Abel Meeropol, sob o pseudônimo de Lewis Allan. Era sobre o linchamento de dois homens negros, no sul dos EUA, por homens brancos (KKK)


Southern trees bear a strange fruit (árvores do sul carregam uma fruta estranha)
Blood on the leaves and blood at the root (sangue nas folhas e sangue na raiz)
Black bodies swinging in the southern breeze (corpos negros balançando na brisa do sul)
Strange fruit hanging from the poplar trees (frutas estranhas penduradas nos álamos)


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Outra música de sucesso foi God Bless the Child, de 1941. Em 1943, a cantora foi citada na revista Life, como uma cantora com "estilo distinto de qualquer cantor popular". Em 1946, ela participou do filme New Orleans, ao lado de Neil Armstrong. Em 1947, ela foi presa por porte de drogas. Só foi liberada em 1948. Em 1949, foi novamente presa e, além de ser proibida de se apresentar em locais que vendessem bebidas alcoólicas, também não recebia os royalties por suas músicas. Era o começo do fim. Na gravação abaixo, pode-se perceber a deterioração de sua saúde. A imagem é de 1952, e Lady Day canta God Bless the Child:


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Em 1959, Billie Holiday morreu, cercada de policias (que haviam ido prendê-la mais uma vez), com menos de um dólar na sua conta bancária e menos de mil dólares em dinheiro. E isso, para uma das maiores cantoras de sua época, que vendeu milhares de discos, fez inúmeros shows, e se tornou uma das cantoras mais populares de sua época, na primeira metade do século XX.




Scent of magnolias, sweet and fresh
("perfume de magnólias, doce e fresco", verso da música Strange Fruit, e flores presas em seu cabelo)

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