sexta-feira, 8 de julho de 2011

Trilhas Sonoras 2 - O Astro (1977)

Com essa onda de "remake" da novela O Astro, fui buscar a Trilha Sonora original, a fim de verificar o que era sucesso, naqueles idos de 1977...Antes, vamos verificar a ficha da novela:


O Astro foi uma novela veiculada pela Rede Globo de Televisão, entre dezembro de 1977 e julho de 1978. Teve 186 capítulos, e foi escrita por Janete Clair, com a Direção de Daniel Filho.

A abertura da novela era a música era a música Bijuterias, de João Bosco:


BIJUTERIAS - JOÃO BOSCO

Em setembro
Se Vênus me ajudar
Virá alguém
Eu sou de virgem
E só de imaginar
Me dá vertigem
Minha pedra é ametista
Minha cor, o amarelo
Mas sou sincero
Necessito ir urgente ao dentista
Tenho alma de artista
E tremores nas mãos
Ao meu bem mostrarei
No coração. Um sopro e uma ilusão
Eu sei
Na idade em que estou
Aparecem os tiques, as manias
Transparentes Transparentes
Feito bijuterias
Pelas vitrines
Da Sloper da alma
* não achei o significado exato de "sloper". O Mais próximo que achei foi ladeira e/ou assaltante...
Em seguida, as músicas da Trilha Sonora Nacional:
1) Maria Bethânia: Um Jeito Estúpido de Te Amarhttp://www.youtube.com/watch?v=QnvZFjJo_Q4
Esse era o tema de Amanda (Dina Sfat, que agora será vivida por Carolina Ferraz), que se apaixonava por Herculano Quintanilha;
Peninha dava voz para o amor de Márcio (Tony Ramos), um jovem rico, que se apaixonava por Lili (Elizabeth Savala). O casal será vivido por Thiago Fragoso e Alinne Moraes;
3) Beth Carvalho: Saco de Feijão - esse era o tema de Consolação (Eloísa Mafalda), que agora será vivida por Selma Egrei. Consolação é mãe de Lili. A música resumia não só a situação da família de Lili, como a situação do país;

4) Emílio Santiago: Nega - no início da novela, Herculano Quintanilha e Neco dão um golpe na cidadezinha onde vivem. Herculano é preso e Neco escapa. Anos depois, eles se reencontram, e Herculano passa a perseguir Neco. A música de Emílio Santiago era o tema de Neco e sua esposa Laurinha (Flávio Migliaccio e Ângela Leal). Na nova versão, o casal será vivido por Humberto Martins e Simone Leal. Detalhe: Laurinha é irmã de Lili. Ouça a música tema do casal: http://www.youtube.com/watch?v=DRAfZxE1_l8
5) Clara Nunes: As Forças da Natureza: essa música parece ser feita para os nossos dias. Duvida? Então, veja aqui: http://www.youtube.com/watch?v=Sy1oeSYM-y8
6) Rita Lee: Ambição - essa era a música de Herculano Quintanilha (Francisco Cuoco). Na atual versão, ele será vivido por Rodrigo Lombardi. Veja aqui: http://www.youtube.com/watch?v=xiKM6iGHrJ8
7) Marilia Barbosa: Olhahttp://www.youtube.com/watch?v=A_jPutYZ9T8
Trilha Internacional
1) Santa Esmeralda: Don't Let Me Be Minsunterstood

3) Billy Paul: Only The Strong Survivehttp://www.youtube.com/watch?v=a2e9YsR7DT8
4) David Castle: You're Too Far Awayhttp://www.youtube.com/watch?v=RyJiHqJ_LZA
5) Rita Coolidge: We're All Alonehttp://www.youtube.com/watch?v=yGC29fn8JFU
6) Abba: The Name of The Gamehttp://www.youtube.com/watch?v=iJ90ZqH0PWI
Eu achei interessante perceber que muita gente conhece as músicas da trilha internacional, mesmo passados quase 35 anos da novela original...Boney M, Abba, Rita Coolidge, Billy Paul, The Commodores eram nomes de astrosd a música da época...Já as músicas da trilha nacional não tinham todo esse carisma: apesar de ter Guilherme Arantes, Rita Lee, Clara Nunes, Vanusa e Maria Bethânia, essas não eram suas músicas mais conhecidas...

terça-feira, 5 de julho de 2011

Histórico da MPB I - de 1836 a 1910

1836 - nasce, em Campinas (SP), o compositor Carlos Gomes;




1847 - nasce, no Rio de Janeiro, a compositora Chiquinha Gonzaga;



1859 - Carlos Gomes compõe Quem Sabe. Chiquinha Gonzaga tem 12 anos;

1863 - nasce, no Rio de Janeiro, o compositor Ernesto Nazareth (abaixo) e em São Luis do Maranhão (MA), o poeta, músico e compositor Catulo da Paixão Cearense. Carlos Gomes tem 27 anos e Chiquinha Gonzaga tem 16 anos. Neste ano, ela é obrigada a se casar com o oficial da Marinha Jacinto Ribeiro do Amaral. Enquanto isso, Carlos Gomes parte para a Europa, aos 27 anos;


1867 - já separada do marido, e de dois filhos, Chiquinha Gonzaga fica apenas com o filho mais velho, João Gualberto. Neste ano, reencontra um antigo amor, o engenheiro João Batista de Carvalho, com quem tem mais uma filha, Alice Maria. Está com 20 anos. Carlos Gomes começa a compor a ópera O Guarani, em Milão (Itália). Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense têm 4 anos;

1870 - Carlos Gomes estréia sua ópera, intitulada O Guarani, aos 30 anos. Chiquinha Gonzaga tem 23 anos; Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense têm 7 anos;


* para quem não conhece, a abertura de O Guarani é a famosa música de abertura da Hora do Brasil. Você pode ouvi-la no Youtube:


1877 - Ernesto Nazareth compõem, aos 14 anos, sua primeira música, a polca-lundu Você Bem Sabe. Carlos Gomes tem 37 anos e Chiquinha Gonzaga tem 30 anos. Catulo da Paixão Cearense também tem 14 anos;

1880 - Ernesto Nazareth faz, aos 17 anos, sua primeira apresentação pública. Carlos Gomes tem 40 anos e Chiquinha Gonzaga tem 33 anos. Neste mesmo ano, a família de Catulo da Paixão Cearense se muda para o Rio de Janeiro;

1893 - é lançado tango Brejeiro (abaixo), de Ernesto Nazareth (30 anos), que atinge sucesso internacional. Carlos Gomes tem 53 anos e Chiquinha Gonzaga tem 46 anos. Catulo da Paixão Cearense também tem 30 anos;


1894 - nasce, no Rio de Janeiro, o cantor e compositor Antonio Vicente Filipe Celestino (foto abaixo);


1896 - morre, no Pará, o compositor Carlos Gomes, aos 60 anos. Chiquinha Gonzaga tem 49 anos e Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense têm 33. Vicente Celestino tem 2 anos;

1897 - nasce, no Rio de Janeiro, o flautista, saxofonista, compositor e arranjador Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha (foto abaixo, com Vinicius de Moraes ao fundo). Chiquinha Gonzaga tem 50 anos e Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense têm 34. Vicente Celestino tem 3 anos;



1898 - nasce, no Rio de Janeiro, o cantor Francisco Alves (abaixo). Chiquinha Gonzaga tem 51 anos, Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense têm 35 anos, Vicente Celestino tem 4 anos e Pixinguinha tem 1 ano;


1899 - aos 52 anos, Chiquinha Gonzaga conhece o jovem João Batista Fernandes Lage, de 16 anos, por quem se apaixona. Passam a viver juntos e, anos depois, mudam-se para Lisboa (Portugal), a fim de fugir do falatório. Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense têm 36 anos, Vicente Celestino tem 5 anos, Pixinguinha tem 2 anos e Francisco Alves tem 1 ano;

1901 - apresentação de Ó Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga, então com 54 anos. Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense têm 38 anos, Vicente Celestino tem 7 anos, Pixinguinha tem 4 anos e Francisco Alves tem 3 anos;

1902 - Chiquinha Gonzaga tem 55 anos, Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense têm 39 anos, Vicente Celestino tem 8 anos e começa a cantar no grupo Pastorinhas da Ladeira do VianaPixinguinha tem 5 anos e Francisco Alves tem 4 anos. Frederico Figner funda a Casa Edison, no Rio de Janeiro, não só para vender gramofones, como também gravar discos. Neste mesmo ano, Xisto Bahia compõem o lundu Isto é Bom, no primeiro disco brasileiro, gravado por Bahiano. Nascem, no Rio de Janeiro, o compositor Moreira da Silva (abaixo), em Valença (RJ) a cantora Clementina de Jesus e em Itaguaí (RJ), a cantora lírica Balduína de Oliveira Sayão (Bidu Sayão)




1903 - nasce, em Ubá (MG), o compositor Ary Barroso (foto abaixo). Chiquinha Gonzaga tem 56 anos, Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense têm 40 anos, Vicente Celestino tem 8 anos, quando se apresenta no coro infantil da ópera Carmen, e é notado pelo tenor italiano Enrico Caruso, que o convida para aprender canto lírico na Itália. Seu pai recusa a oferta. Pixinguinha tem 6 anos, Francisco Alves tem 5 anos e Moreira da Silva, Clementina de Jesus e Bidu Sayão têm 1 ano;


1904 - Chiquinha Gonzaga, aos 57 anos, compõe o Corta-Jaca, e Jorge Galatti compõe Saudades do Matão. Nascimento, no Rio de Janeiro, do compositor Lamartine Babo (foto abaixo). Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense têm 41 anos, Vicente Celestino tem 10 anos, Pixinguinha tem 7 anos, Francisco Alves tem 6 anos, Moreira da Silva, Clementina de Jesus e Bidu Sayão têm 2 anos e Ary Barroso tem 1 ano;


1905 - É gravada em disco a obra Brejeiro, de Ernesto Nazareth, com letra de Catulo da Paixão Cearense (ambos têm 42 anos). Chiquinha Gonzaga tem 58 anos, Vicente Celestino tem 11 anos e trabalha numa fábrica de guarda-chuvas, Pixinguinha tem 8 anos, Francisco Alves tem 7 anos, Moreira da Silva, Clementina de Jesus e Bidu Sayão têm 3 anos, Ary Barroso tem 2 anos e Lamartine Babo tem 1 ano;

1907 - nascem, no Rio de Janeiro, o cantor Mário Reis (abaixo) e o compositor Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha (também conhecido como João de Barro). Chiquinha Gonzaga tem 60 anos, Vicente Celestino tem 13 anos, Pixinguinha tem 10 anos, Francisco Alves tem 9 anos, Moreira da Silva, Clementina de Jesus e Bidu Sayão têm 5 anos, Ary Barroso tem 4 anos e Lamartine Babo tem 3 anos;


1908 - nascem, neste ano, o cantor Almirante (Henrique Foréis Domingues), o cantor e compositor Silvio Caldas e o compositor Cartola (Angenor de Oliveira, na foto abaixo), todos no RJ. Chiquinha Gonzaga tem 61 anos, Vicente Celestino tem 14 anos, Pixinguinha tem 11 anos, Francisco Alves tem 10 anos, Moreira da Silva, Clementina de Jesus e Bidu Sayão têm 6 anos, Ary Barroso tem 5 anos, Lamartine Babo tem 4 anos e Mário Reis e João de Barro têm 1 ano;


1909 - nasce, em Portugal, a cantora Carmen Miranda (abaixo) e em Miraí (MG) nasce o cantor e compositor Ataulfo AlvesChiquinha Gonzaga tem 62 anos, Vicente Celestino tem 15 anos, Pixinguinha tem 12 anos, Francisco Alves tem 11 anos, Moreira da Silva, Clementina de Jesus e Bidu Sayão têm 7 anos, Ary Barroso tem 6 anos, Lamartine Babo tem 5 anos, Mário Reis e João de Barro têm 2 anos e Almirante, Sílvio Caldas e Cartola têm 1 ano;


1910 - Ernesto Nazareth compõe Odeon, aos 47 anos. Nasce, em Valinhos (SP), o compositor Adoniran Barbosa e no Rio de Janeiro, o compositor Noel Rosa (abaixo). Chiquinha Gonzaga tem 63 anos, Vicente Celestino tem 16 anos e volta a trabalhar na sapataria do pai (ele tinha trabalhado com o pai antes de começar a cantar), Pixinguinha tem 13 anos, Francisco Alves tem 12 anos, Moreira da Silva, Clementina de Jesus e Bidu Sayão têm 8 anos, Ary Barroso tem 7 anos, Lamartine Babo tem 6 anos, Mário Reis e João de Barro têm 3 anos, AlmiranteSílvio Caldas e Cartola têm 2 anos e Carmen Miranda e Ataulfo Alves têm 1 ano;



Resumo: entre 1836 e 1910, surgiram algumas das bases da MPB: poderíamos dizer que Carlos Gomes (1836/1896), Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Catulo da Paixão Cearense, todos compositores, formaram uma "primeira geração" da música nacional, onde três músicas obtiveram maior destaque: Quem Sabe (1859), Ó Abre Alas (1901) e Odeon (1910). Uma segunda geração foi gestada neste período, mas o seu trabalho apareceria mais tarde: compositores como Adoniran Barbosa, Noel Rosa, Lamartine Babo, Ary Barroso e Pixinguinha, bem como cantores do quilate de Vicente CelestinoFrancisco Alves, Mário Reis, Carmen Miranda, Sílvio Caldas e Ataulfo Alves. As músicas de época foram a modinha, os lundus, os cateretês e a música mais erudita. Vale lembrar que foi nessa época que surgiu a Casa Edison, primeira a vender gramofones e gravar discos no Brasil (1902). Destaque também para a música Saudades do Matão (1904). Se você quer conhecer essa época, no campo musical, precisa conhecer essas pessoas e essas músicas...

Música Internacional: The Entertainer, de Scott Joplin (1867/1917);

VIDEO: ISTO É BOM (1902)
primeira música (lundu), gravada no Brasil




domingo, 3 de julho de 2011

1859 - Quem Sabe

No dia 14 de fevereiro de 2009, postei sobre uma das músicas mais antigas da MPB brasileira: Quem Sabe, de Carlos Gomes (1836/1896). Essa música foi composta em 1859, e pode ser considerada uma das primeiras músicas de nossa MPB.

Mas na época, não postei o vídeo com a música, e hoje vou resolver isso. Então, com vocês, a música Quem Sabe, composta por Carlos Gomes em 1859, na voz de Francisco Petrônio (1923/2007):



Quem sabe? (modinha, 1859) - Carlos Gomes e Bittencourt Sampaio

Tão longe de mim distante / Onde irá, onde irá teu pensamento
Tão longe de mim distante / Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera, saber agora / Quisera, saber agora
Se esqueceste, se esqueceste / Se esqueceste o juramento.
Quem sabe se és constante / Se ainda é meu teu pensamento
Minh’alma toda devora / Dá a saudade dá a saudade agro tormento
Tão longe de mim distante / Onde irá onde irá teu pensamento
Quisera saber agora / Se esqueceste se esqueceste o juramento.

Contexto da época: Carlos Gomes tinha 23 anos quando compôs Quem Sabe. Era órfão de mãe (tinha sido assassinada) e criado pelo pai, com muitas dificuldades. Lembremo-nos que, naquela época, as famílias tinham muitos filhos, e com a de Carlos Gomes não foi diferente. Mas, "Seu Maneco" (Manuel José Gomes) incentivou a carreira do jovem Carlos, e o irmão José Pedro ajudou. Mas é claro que viver de música ainda não era possível, naqueles tempos, e Carlos ajudava um alfaiate, quando não estava ensaiando. 
Ele foi se aperfeiçoando, e em 1854 compôs uma missa, a Missa de São Sebastião, dedicada ao pai. Também já compunha valsas, quadrilhas e polcas, os ritmos de então. 
Em 1857 compôs a modinha Suspiro d'Alma, com versos do poeta romântico português Almeida Garrett (1799/1854) e em 1859 compôs Quem Sabe.

A época de Carlos Gomes foi onde o Nacionalismo e o Romantismo davam o tom das obras literárias e/ou musicais. Um dos ídolos de Carlos Gomes foi Giuseppe Verdi (1813/1901) e outro foi Almeida Garrett (já citado). O Romantismo tinha por características a melancolia e o pessimismo (o chamado "mal-do-século"). 

Na música Quem Sabe, há um verso (dá a saudade agro tormento), que pode muito bem representar o pessimismo exacerbado que tomava conta das pessoas cultas, àquela época...


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Cartola - 1908/1980




Amante do Carnaval, Cartola se tornou um mito do samba e da MPB. Com a morte do avô, o menino Angenor de Oliveira viu sua vida virar de ponta-cabeça. Nascido no Catete, no Rio de Janeiro em 1908 e morando em Laranjeiras, o terceiro de uma família de 10 irmãos foi obrigado pelo pai a começar a trabalhar cedo, aos 11 anos, tão logo mudou-se para o morro da Mangueira. Abaixo, Cartola em 1920, com 12 anos:

Aos 15 anos, trabalhando em uma gráfica passou em frente a uma construção. Viu pedreiros assoviando para as garotas e às vezes se dando bem. Pensou: "isso que é emprego". Passou a trabalhar na obra, como servente. Para que o cimento não caísse em seu cabelo começou a usar um chapéu coco, ao qual tinha grande apreço. Surgiu daí o apelido que o imortalizou, Cartola. Foi nessa época que a mãe morreu, fato que contribuiu para que largasse os estudos, tendo concluído a quarta série do que hoje equivale ao Ensino Fundamental. Após uma briga com o pai, acabou expulso de casa. Sem ter para onde ir, farreava ao longo do dia e a noite dormia no trem, viajando entre a Central do Brasil e a Dona Clara.
Quando voltou, o pai havia saído de casa. Caiu na vida. O jovem rapaz frequentava a zona de meretrício, quedou-se doente. Teve gonorreia, cancro duro e cancro mole. Deolinda da Conceição, 25 anos, sua vizinha 8 anos mais velha e casada, começou a cuidar dele. Limpava o barraco onde morava e fazia-lhe comida. A mulher se apaixonou e acabou abandonando o marido.
Apreciador de ranchos - antigos blocos de carnaval - quando atingiu a maioridade era considerado o melhor pedreiro do morro. Apesar disso, não era chegado ao trabalho. Ficava nas esquinas, bebendo, tocando violão ou fazendo samba. No final dos anos 20, começou a montar um bloco carnavalesco. Em 1928, foi um dos sete fundadores da Mangueira, escola de samba que desfilaria pela primeira vez no ano seguinte. Abaixo, o jovem Cartola:

Foi Cartola quem a nomeou como Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. "Eu resolvi chamar de Estação Primeira porque era a primeira estação de trem, a partir da Central do Brasil, onde havia samba", declarou. Quando começou a tocar os primeiros sambas, este ritmo musical era visto como coisa de malandro e marginal. O primeiro que compôs foi "Chega de Demanda", uma espécie de proposta para que os blocos da Mangueira se unissem em uma agremiação maior. Já o provável segundo foi feito para disputar um concurso de samba da cidade. São as músicas Beijos e Eu Quero Nota. Abaixo, desenho representando Cartola, com as cores verde e rosa da Mangueira:

Em 1931, Cartola vende seu primeiro samba, por 300 mil réis, para Mário Reis. A música Infeliz Sorte foi gravada por Francisco Alves. Em seguida, com Chico Alves, gravou Não Faz, Amor, Tenho um Novo Amor, Divina Dama, Diz Qual foi o Mal que eu te Fiz. Naquela época, um chapéu de palha custava sete mil-réis. Abaixo, Chico Buarque cantando Divina Dama:

Em um concurso realizado em 1935 por um jornal carioca, onde os leitores deveriam votar em um compositor por meio de um cupom impresso no jornal, Cartola recebeu 2 únicos votos, de seu amigo Noel Rosa. Paulo da Portela foi o grande vencedor. A Mangueira só não apoiou Cartola porque estava em crise, com a doença e morte de Saturnino Gonçalves.
No entanto, dois anos depois Cartola foi aclamado e ganhou uma medalha de ouro em um concurso de compositores. O evento foi promovido pelo Departamento de Turismo da Prefeitura do Rio de Janeiro. As músicas Partiu, uma das preferidas do maestro Heitor Villa Lobos, e Sei Chorar são as responsáveis por este título.
Ao longo de 1940, Cartola chegou a participar durante três meses do programa A Voz do Morro, transmitido pela Rádio Cruzeiro do Sul. Junto com o amigo Paulo da Portela, que depois iria para a Mangueira, cantava músicas próprias e de outros compositores.

A partir de 1941, o compositor passou por uma série de reveses em sua vida e carreira. De 41 a 47 só a Portela ganhou os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. O período ficou conhecido como "7 anos de Glória". Exceto em 1942, quando ficou em 3º lugar, em todos esses anos a Mangueira conquistou a vice-liderança.
Em 1946, aos 38 anos, Cartola foi acometido por meningite. Curou-se no ano seguinte. A recuperação foi tema da música Grande Deus. Logo depois de ter melhorado da doença, sua esposa, Deolinda, morre. No ano em que a escola de samba Império Serrano estreou e ganhou o Carnaval (1948), a Mangueira ficou em 4º lugar. Foi a última vez que Cartola puxou um samba de sua autoria durante um desfile. Sem a mulher e sem a escola, o compositor "some". Envolve-se com uma mulher chamada Donária.
O músico escondeu-se em Nilópolis e em Caxias com Donária. Depois que chegou ao fim, este relacionamento foi relembrado na canção Tive, Sim, dedicada a Eusébia Silva do Nascimento, a Dona Zica da Mangueira, sua segunda mulher, com quem casou-se em 1964. Abaixo, a música Tive, Sim:

O casal se conhecia desde a infância, mas quis o destino que Zica fosse cunhada do grande amigo e parceiro de Cartola, Carlos Cachaça. Ambos se reencontraram e Zica deu muita força para que o cantor desse uma nova guinada em sua vida. Abaixo, foto do casamento de Cartola e Dona Zica, em 1964:

Neste tempo em que ficou desaparecido, Cartola chegou a ser dado como morto. Foi encontrado trabalhando em uma garagem em Ipanema, onde lavava 11 carros por noite, apesar da idade já avançada.
Após ter sido redescoberto por Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, voltou a se apresentar, cantar em programas de rádio, e restaurantes. No final dos anos 50, com a proximidade das eleições foi convidado a ser cabo eleitoral. Conseguiu empregos em repartições públicas e, nessa fase, participou do filme Orfeu do Carnaval. Zica e Cartola aparecem como figurantes, na cena do casamento de Orfeu e Eurídice. São os padrinhos dos protagonistas.
Cartola foi se restabelecendo, contando com o apoio de Zica e amigos. Em meados dos anos 60, o casal administrou um influente restaurante, que funcionou como ponto de encontro da cena do samba carioca, o Zicartola. O empreendimento durou três anos, até passar para as mãos de João de Barro, mas Carlota e Zica saíram da experiência, tão pobres quanto entraram. Abaixo, o casal:


Apesar de seu sucesso - nos anos 30 era chamado de "mito" pela imprensa e nos anos 70 de "mito vivo da música popular brasileira" - Cartola não ganhou muito dinheiro em vida. Foi, isso sim, bastante ativo e trabalhador. Seu primeiro LP foi gravado entre os meses de fevereiro e março de 1974, aos 65 anos, após muita insistência por parte do compositor. Abaixo, a capa:


"Mesmo depois de gravado eu não acreditava. Precisei ter o disco na mão. Precisei ver ele sendo vendido, nas lojas pra acreditar. E me senti muito emocionado, quando ouvi a minha voz no disco. Eu já tinha até pensado que ia morrer sem gravar um disco. Tava até perdendo a vontade de compor, vendo que tanta gente gravava e só não chegava a minha vez. Quando o disco saiu, voltei a fazer música correndo", declarou em entrevista ao jornal carioca O Globo.
Em abril de 1976 foi lançado o seu segundo disco, que trouxe um de seus maiores sucessos, As Rosas Não Falam. A canção foi um "presente de aniversário" que deu a si mesmo, uma vez que a compôs a 3 ou 4 dias de completar 67 anos. A música também chegou a ser tema de novela da Rede Globo.
Com o sucesso de seus LPs, Cartola enfrentou uma sequência de shows por diversas cidades brasileiras. Manteve o ritmo de trabalho quase até o final de sua vida. Dois ou três meses antes de morrer, gravou sua última música, a faixa Eu Sei, de um disco de Alcione.
Faleceu aos 72 anos, doente em uma cama de hospital. No final da vida conseguiu construir uma casa que serviu de residência para sua filha adotiva e outros familiares. Cartola morreu em 30 de novembro de 1980, em decorrência de um câncer. No dia seguinte, seu corpo foi velado na quadra da Mangueira, ao som de As Rosas Não Falam. Abaixo, Beth Carvalho cantando As Rosas Não Falam:


Contexto Histórico

Cartola nasceu em 11 de outubro de 1908, mesmo ano em que se comemorou o centenário da vinda da família real portuguesa ao Brasil. O nascimento do compositor deu-se pouco depois da morte do maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis.
Aos 11 anos, quando se mudou para a Mangueira, o morro estava em formação, com apenas 50 barracos naquela época.
A década de 30 foi uma das mais importantes para a carreira de Cartola. Foi chamado de "mito" pela imprensa da época. Passado os anos 70, ganhou a alcunha de "mito vivo da MPB". Em 1935, o compositor destacava-se como mestre de harmonia da escola de samba Mangueira. Naquele ano, a elite passou a reconhecer as escolas de samba, incluídas no programa oficial do carnaval por iniciativa do prefeito Pedro Ernesto Batista.
No começo da 2ª Guerra Mundial, em 1939, Cartola compõe sambas de inspiração patriota como Interpretação. Em parceria com Carlos Cachaça compõe Nazista, Quem És?.
O maestro britânico Leopold Stokowski vem ao Brasil e entra em contato com o maestro Heitor Villa Lobos, devido a seu vasto conhecimento de música brasileira. Villa Lobos então reúne artistas como Pixinguinha, Jararaca e Ratinho, Janir Martins e Cartola, que conheceu em uma festa nos anos 30.
Na ocasião do encontro entre o maestro polonês e os artistas brasileiros, foram gravadas 40 músicas dos vários artistas. Cartola teve quatro de suas composições gravadas. Meu Amor, Primeiro Amor (com Aluísio Dias), Tristeza (com Orlando Batista) e Quem Me Vê Sorrir (com Carlos Cachaça), sendo que apenas esta última entrou para o LP. Abaixo, Quem Me Vê Sorrir:


Curiosidades

Carnavalesco

Um dos fundadores da escola de samba Mangueira, a ligação de Cartola com o Carnaval pode ter vindo antes do berço, já na gestação. Passados os festejos daquele ano, sua mãe Aída Gomes de Oliveira descobriu que estava grávida. Ainda garoto, Angenor frequentava com o avô os ranchos, espécie de blocos carnavalescos do começo do século 20.

Literatura

Quando sua carreira como compositor e violonista começava a deslanchar, por volta de 1934, Cartola, cujas letras ficavam ótimas quando compunha em parceria com Carlos Cachaça, percebeu que precisava aprimorar a letra de suas músicas. Passou a ler poemas e romances; teve influência de Castro Alves e Gonçalves Dias. Leu Olavo Bilac e um pouco de Camões.

Vida dura

Apesar de ser interpretado por nomes de peso, como Carmem Miranda e ter vendido algumas de suas composições, Cartola não acumulou riquezas em vida. Após ganhar o concurso de compositores organizado pelo departamento de turismo do Rio de Janeiro, empenhou na Caixa Econômica a medalha de ouro que conquistou, pra aliviar as agruras econômicas da família.

Vícios

Em entrevista ao Jornal Última Hora, Cartola declarou que seus vícios eram "fumar, beber, tocar violão e correr atrás de mulher". Preferia as mulheres mais velhas "pra evitar filho e porque tem mais juízo". Boêmio, chegava a beber 2 litros de cachaça por dia.

Angenor ou Agenor?

Até os 55 anos de idade, Cartola acreditava se chamar Agenor. Foi em 1964, quando decidiu casar-se com Dona Zica para oficializar a relação de 12 anos, que descobriu em sua certidão de nascimento que seu nome de registro era Angenor. O nome em comum fez com que mais tarde o sambista fosse uma das influências de Cazuza, líder do Barão Vermelho, batizado como Agenor. Abaixo, Cartola cantando O Mundo É Um Moinho, em 1977:


domingo, 19 de junho de 2011

Drama, Ópera e Verdi


A palavra DRAMA vem do grego, e significa AÇÃO. Geralmente, utiliza-se essa palavra para definir uma “história” contada no teatro, no cinema ou até mesmo num livro. Assim, podemos falar que iremos assistir a um “drama”, quando vamos ao cinema...



Mas, como não existia cinema na Grécia Clássica, o “drama” era geralmente associado à literatura e /ou ao teatro. E, como teatro é mais "ação" que literatura...

No final do século XVI, surgiu a ÓPERA. E ópera é um DRAMA com MÚSICA. A primeira ópera (desaparecida), foi feita em 1597, por Jacopo Peri, e se chamava Dafne

Uma outra ópera de Peri, chamada Eurídice (1600) é a mais antiga que se conhece, e ainda existe.

As óperas mais antigas surgiram na Itália. Por isso, as óperas cantadas nesta língua são consideradas as originais. Mais há óperas cantadas em outras línguas, como o francês, alemão e inglês.

Os lugares onde se apresentavam as óperas também receberam o nome de ópera. A ópera mais famosa é o Scalla, de Milão:


Um dos mais famosos compositores de ópera foi Giuseppe Verdi (1813/1901), e sua óperas mais famosas são conhecidas por todos, até por você, que não gosta de óperas. Duvida? Então, veja algumas das óperas de Verdi, e ouça um trecho, para ver se conhece ou não:

1) Nabucco: foi escrita em 1842 e conta a história do Rei Nabucodonosor, da Babilônia. Ela se divide em quatro atos, sendo que o mais famoso é o terceiro, onde é cantado Va, pensiero ("vai, pensamento"). Esse canto, dos escravos judeus/hebreus, presos na Babilônia, serviu de símbolo para que os italianos lutassem contra os austríacos, que os subjugavam, nessa época:


Va Pensiero

Va', pensiero, sull'ali dorate. (Vá pensamento, sobre as asas douradas)
Va', ti posa sui clivi, sui coll, (Vá, e pousa sobre as encostas das colinas)
ove olezzano tepide e molli (Onde os ares são tépidos e macios)
l'aure dolci del suolo natal! (Com a doce fragrância da terra natal)
Del Giordano le rive saluta, (Saúda as margens do Jordão)
di Sionne le torri atterrate. (E as torres abatidas do Sião)
O mia Patria, sì bella e perduta! (Oh, minha pátria, tão bela e perdida)
O membranza sì cara e fatal! (Oh, lembrança tão cara e fatal)
Arpa d'or dei fatidici vati, (Harpa dourada de desígnios fatídicos)
perché muta dal salice pendi? (Por que você chora a ausência da terra querida?)
Le memorie del petto riaccendi, (Reacende a memória no nosso peito)
ci favella del tempo che fu! (Fale-nos do tempo que passou)
O simile di Solima ai fati, (Lembra-nos o destino de Jerusalém)
traggi un suono di crudo lamento; (Traga-nos um ar de lamentação triste)
o t'ispiri il Signore un concento (Ou que o Senhor te inspire harmonia)
che ne infonda al patire virtù (Que nos infundam força para suportar o sofrimento)
che ne infonda al patire virtù (Que nos infundam força para suportar o sofrimento)
al patire virtù! (Para suportar o sofrimento)



Tradução e Letra: http://italiasempre.com/verpor/vapensiero2.htm

2) Rigoletto: ópera escrita por Verdi em 1851. Rigoletto é um corcunda e bobo da corte. Sua única alegria é a filha Gilda. Ele apóia o Duque, quando ele tenta seduzir a esposa do Conde, e quando Monterone o acusa de ter seduzido sua filha. Rigoletto zomba da ira de Monterone, e este lhe roga uma maldição, que se concretiza quando o Duque seduz sua própria filha. O trecho mais famoso desse ópera é La Dona e mobile (abaixo, cantada por Luciano Pavarotti):


La Dona e Mobile

La donna è mobile qual piuma al vento, (A mulher é móvel como pluma ao vento)
muta d'accento e di pensiero. (Muda de acento e de pensamento)
Sempre un amabile leggiadro viso, (Sempre um amável, gracioso rosto)
in pianto o in riso, è menzognero. (Em pranto ou em riso, é mentiroso)
La donna è mobil qual piuma al vento, (A mulher é móvel como pluma ao vento)
muta d'acc...ento e di pensier, e di pensier, (Muda de acen...to, e de pensamento)
e... e di pensier. (e de pensamento)


È sempre misero chi a lei s'affida, (É sempre um infeliz a quem ela se entrega)
chi le confida mal cauto il core! (Quem lhe confia incautamente o coração)
Pur mai non sentesi felice appieno, (Também nunca sente-se feliz em cheio)
chi su quel seno non liba amore! (Quem naquele seio não saboreia amor!)
La donna è mobil qual piuma al vento, (A mulher é móvel como pluma ao vento)
muta d'acc...ento e di pensier, e di pensier, (Muda de a...cento, e de pensamento)
e..........e di - pensier. (e de pensamento)


Letra e Traduçãohttp://italiasempre.com/verpor/ladonnaemobile2.htm


 3) La Traviata: em português, poderia ser chamado de "a mulher caída". Verdi se baseou na Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, para compor essa ópera em três cenas, que estreou em 1853. Violetta Valéry, uma socialite, conhece Alfredo Germont, numa festa, e ele lhe declara seu amor. Violetta responde que não sabe amar mas, em segredo, gosta das palavras do rapaz. Eles passam a viver juntos, até que o pai dele pede a ela que se afaste. Ela cede aos pedidos do pai de Alfredo, e os dois só se reconciliam quando ela está à beira da morte, debilitada pela tuberculose. A música famosa, aqui, é Libiamo, cantada no primeiro Ato:



Num próximo post, veremos outros compositores de ópera, como Bizet, autor de Carmen (onde podemos ouvir a Habanera) ou Rossini, que compôs o Barbeiro de Sevilha...


Habanera


habanera, ou havaneira em algumas traduções para o português, é um estilo musical criado em Havana, (Cuba).


A habanera, cujo nome deriva da cidade de onde é oriunda (La Habana, em espanhol), foi a primeira música genuinamente afro-latino-americana, que foi levada de Cuba para salões europeus por volta do século XVII. Foi sofrendo alterações em sua estrutura básica devido aos arranjos que lhe deram os músicos da Europa, e assim, alterada, voltou às Américas através dos imigrantes portugueses e espanhóis. Abaixo, Havana, capital de Cuba, onde nasceu a Habanera:


É uma música de compasso binário, com o primeiro tempo fortemente acentuado, com uma curta introdução seguida de duas partes de oito compassos cada uma, com modulação do tom crescente.
Da habanera derivam diversos ritmos como o maxixe brasileiro e o tango argentino. Também deu origem ao vanerão dos gaúchos.


É uma dança que foi também, algumas vezes, aproveitada no repertório erudito, sendo o exemplo mais famoso a habanera da ópera Carmen, de Georges Bizet:


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